Ter um lugar que nos espera: convívio, pertença e saúde psicológica

Sofia Almeida Barbosa, MSc, PhD — Psicóloga Clínica e da Saúde

«À sexta-feira, eu não posso mesmo faltar.» A frase da Filomena, participante no projeto Olhó Nobelo, traduz a importância que um encontro regular pode adquirir na vida de alguém. Há uma atividade para realizar, pessoas com quem conversar e a vontade de regressar a um espaço onde se sente bem.

Foi a partir de experiências como esta que, no programa Consultório, do Porto Canal, conversámos sobre isolamento social, relações entre gerações e participação comunitária. Os testemunhos da Dona Teresa e da Filomena, juntamente com a apresentação do projeto pela sua mentora, Marina Pinto, deram expressão concreta a uma questão fundamental: que oportunidades temos para construir e manter relações significativas ao longo da vida?

Isolamento social e solidão: experiências distintas

O isolamento social e a solidão estão relacionados, mas designam realidades diferentes. O primeiro refere-se à escassez objetiva de relações, contactos e interações. A solidão corresponde a uma experiência subjetiva de sofrimento, associada à distância entre as relações que a pessoa tem e aquelas de que sente necessidade. Viver sozinho não significa necessariamente sentir solidão; estar acompanhado também não garante uma ligação satisfatória aos outros.

Esta distinção ajuda a compreender por que razão aumentar o número de contactos pode ser insuficiente. Importa considerar a qualidade das relações, o apoio disponível e a possibilidade de participar de uma forma que tenha significado para a pessoa.

A Organização Mundial da Saúde reconhece a ligação social como uma dimensão relevante para a saúde e identifica o isolamento e a solidão como problemas que atravessam diferentes idades e contextos de vida.

Olhó Nobelo: uma associação que cria oportunidades de encontro

Segundo a apresentação feita no programa, o Olhó Nobelo nasceu em Massarelos durante a pandemia, quando foi necessário encontrar formas de chegar às pessoas que permaneciam em casa. Levar novelos e propor trabalhos em croché permitiu manter uma atividade partilhada, mesmo à distância.

Com a continuidade do projeto, os trabalhos passaram também a ocupar espaços da comunidade. A criação de peças, as exposições e os encontros entre gerações deram visibilidade à participação das pessoas envolvidas.

Nos relatos das participantes, o valor destes encontros aparece ligado à conversa, à aprendizagem, ao prazer de criar e à possibilidade de ensinar. São experiências que ajudam a compreender o significado do projeto nas suas vidas, embora não constituam, por si mesmas, uma avaliação científica dos seus efeitos.

O que a investigação nos diz sobre as atividades manuais

Uma revisão publicada em 2024, intitulada Healing Stitches, reuniu 25 estudos sobre costura, croché, tricô, bordado e outras técnicas têxteis. Os autores identificaram quatro temas principais: bem-estar psicológico; ligação social, valorização e pertença; propósito, realização e satisfação; e identidade, família e transmissão cultural.

Estes resultados sugerem que o interesse destas atividades ultrapassa a execução de uma peça. Criar algo, aprender uma técnica e partilhar conhecimentos são experiências que podem adquirir um significado pessoal e relacional.

Uma revisão sistemática publicada em 2025, que incluiu 19 estudos sobre intervenções com atividades artesanais, encontrou melhorias de curto prazo em diferentes indicadores de saúde mental e bem-estar. Contudo, os estudos variavam nas atividades, populações e métodos utilizados, e os autores salientaram a necessidade de investigação mais robusta.

A evidência é, portanto, promissora e exige uma interpretação prudente. Não permite concluir que o croché, isoladamente, trata a depressão ou a ansiedade. Num grupo comunitário, a atividade manual acontece juntamente com outros elementos: contacto regular, acolhimento, aprendizagem e apoio entre participantes.

Aprender, ensinar e sentir que temos um contributo

Um dos aspetos mais expressivos da conversa foi a satisfação da Dona Teresa ao ensinar pessoas mais novas. Aos 90 anos, partilha um conhecimento que desperta interesse e cria aproximação.

Esta reciprocidade merece atenção. Quem aprende recebe um saber e quem ensina vê reconhecida a sua experiência. O encontro permite que diferentes gerações participem a partir do que conhecem, descobrem e podem oferecer.

A pertença ganha, assim, uma expressão concreta: ter espaço para falar, ser escutado, pedir ajuda e contribuir. No testemunho da Filomena, a vontade de regressar à sexta-feira mostra a importância que aquele grupo passou a ter na organização da sua semana.

Participar depende também das condições de acesso

O testemunho da Dona Teresa trouxe outra dimensão essencial: sem transporte, as dificuldades de mobilidade limitariam a sua presença na associação.

O acesso a um grupo depende de condições concretas. Transportes, acessibilidade, custos e informação podem facilitar ou impedir a participação. A OMS inclui a insuficiência de recursos comunitários, nomeadamente de transporte, entre os fatores que contribuem para o isolamento e a solidão.

Também a flexibilidade descrita no programa merece destaque: poder escolher atividades e participar de acordo com os próprios interesses respeita a autonomia de cada pessoa. Criar oportunidades de encontro exige considerar tanto a disponibilidade dos espaços como as possibilidades de quem os procura.

Cuidar das relações ao longo da vida

O projeto Olhó Nobelo oferece um exemplo de como uma atividade partilhada pode dar origem a encontros com continuidade. Nos testemunhos apresentados, encontramos prazer em aprender, reconhecimento e vontade de voltar.

Estas experiências podem integrar os recursos de bem-estar de uma pessoa e complementar o acompanhamento clínico, quando necessário. O sofrimento persistente ou com impacto significativo na vida quotidiana merece avaliação profissional.

Cuidar das relações passa por criar condições para que as pessoas se encontrem e participem. Ter um lugar que nos espera é saber onde podemos chegar, com quem podemos contar e o que ainda temos para partilhar.


Referências

  1. World Health Organization. (2025). Social connection.

  2. Le Lagadec, D., Kornhaber, R., Johnston-Devin, C., & Cleary, M. (2024). Healing stitches: A scoping review on the impact of needlecraft on mental health and well-being. Issues in Mental Health Nursing, 45(10), 1097–1110.

  3. Bukhave, E. B., Creek, J., Linstad, A. K., & Frandsen, T. F. (2025). The effects of crafts-based interventions on mental health and well-being: A systematic review. Australian Occupational Therapy Journal, 72(1), e70001.


    Leia também: Quando o casal se torna «colega de casa»: compreender a desconexão emocional.

SAB Psicologia

Psicóloga Clínica e da Saúde · PhD · Sofia Almeida Barbosa · Consultas presenciais no Porto e online

https://www.sabpsicologia.com
Próximo
Próximo

Síndrome pós-férias: o que o regresso ao trabalho pode revelar?