Ansiedade: um problema da vida moderna —Porto Canal

A ansiedade tornou-se uma das experiências psicológicas mais prevalentes no mundo moderno. A aceleração do ritmo de vida, a sobre-exposição à informação, instabilidade social e económica e as exigências da vida diária contribuíram para o aumento de estados de inquietação, tensão interna e sobrecarga emocional.

Foi neste contexto que tive a oportunidade de participar no programa Consultório, do Porto Canal, num diálogo conduzido pelo apresentador Ricardo Couto, dedicado à compreensão da ansiedade enquanto fenómeno psicológico, cada vez mais presente, na vida dos portugueses.

Estima-se que 1 em cada 6 portugueses sofra de perturbações de ansiedade, um dado que confirma a relevância clínica, social e humana deste tema. Falar sobre ansiedade, com rigor e clareza, deixou de ser uma opção, é uma necessidade de saúde pública.

Intervenção no programa Consultório do Porto Canal, num diálogo sobre ansiedade enquanto fenómeno psicológico cada vez mais presente na vida moderna.

O que é, afinal, a ansiedade?

Do ponto de vista psicológico, a ansiedade é uma resposta humana natural perante situações percepcionadas como ameaçadoras ou incertas. Trata-se de um mecanismo adaptativo, com uma função protetora: preparar o organismo para agir, antecipar riscos e responder a desafios.

A ansiedade não é, em si mesma, uma doença. É sinal de que o equilíbrio interno está a ser exigido para além da sua capacidade adaptativa.

O problema surge quando esta resposta se torna excessiva, persistente e desproporcional, ativando-se mesmo na ausência de perigo real. Nestes casos, a ansiedade deixa de proteger e passa a comprometer o funcionamento emocional, cognitivo e físico do ser humano.

Ansiedade funcional vs. ansiedade disfuncional

É importante distinguir dois níveis:

Ansiedade funcional

  • transitória

  • proporcional à situação

  • desaparece quando o estímulo termina

  • permite adaptação e ação

Ansiedade disfuncional

  • persistente e invasiva

  • acompanhada de pensamentos catastróficos

  • interfere com o sono, a concentração e a memória

  • limita a vida pessoal, profissional e relacional

Uma metáfora útil é a de um alarme de incêndio:
quando funciona corretamente, protege; quando dispara sem fogo, cria ruído, confusão e desgaste contínuo.

A ansiedade no mundo moderno

Vivemos numa sociedade marcada pela hiperestimulação. Informações alarmistas e violentas: imagens de guerra, catástrofes, injustiça social, instabilidade económica e sofrimento humano têm impacto direto na saúde psicológica e emocional das pessoas.

A este contexto somam-se:

  • pressão para corresponder a múltiplos papéis

  • exigência de produtividade constante

  • comparação social permanente

  • dificuldade em desligar mentalmente

O resultado é um estado interno de hiperativação do sistema nervoso, no qual o corpo permanece em alerta, mesmo quando não existe ameaça imediata.

O corpo fala. Os sinais físicos da ansiedade

A ansiedade manifesta-se, também, através do corpo. Entre os sinais mais comuns encontram-se:

  • fadiga persistente

  • tensão muscular

  • alterações do sono

  • agitação psicomotora

  • dificuldade de concentração

  • sintomas gastrointestinais

  • sensação de aperto no peito ou respiração curta

Muitas pessoas relatam acordar cansadas, mesmo após várias horas de descanso, ou sentir que o corpo não recupera — sinais claros de um organismo em estado de alerta prolongado.

O corpo expressa, muitas vezes, aquilo que ainda não encontrou forma de ser simbolizado pela palavra.

A importância da prevenção e da autorregulação

A prevenção da ansiedade implica uma reorganização progressiva do modo de viver.

Alguns pilares incluem:

1. Regulação do corpo físico

  • sono regular e reparador

  • alimentação equilibrada

  • atividade física adaptada

  • acompanhamento médico preventivo

2. Regulação emocional

  • atenção ao diálogo interno

  • reconhecimento e validação das emoções

  • redução da autocobrança excessiva

  • desenvolvimento de estratégias de coping

3. Atenção ao ritmo de vida

  • redução do multitasking

  • criação de pausas reais

  • contacto com a natureza

  • foco no momento presente

A ansiedade diminui quando o sistema nervoso encontra condições para sair do modo de sobrevivência e regressar ao equilíbrio.

Ansiedade e consciência emocional

Um dos fatores mais relevantes no desenvolvimento da ansiedade é a dificuldade em expressar emoções e necessidades. Aquilo que não é simbolizado tende a ser somatizado.

A ciência psicológica é clara: a repressão emocional prolongada aumenta o risco de ansiedade e angústia. Crenças aprendidas precocemente — como “tenho de ser forte” ou “não devo incomodar” — contribuem para este processo.

Saber escutar-se, reconhecer limites e comunicar necessidades não é fragilidade — é maturidade emocional.

Quando procurar ajuda especializada?

A ansiedade merece atenção clínica quando:

  • interfere com o funcionamento diário

  • se mantém ao longo do tempo

  • condiciona decisões e relações

  • provoca sofrimento significativo

A psicoterapia oferece um espaço seguro para compreender a origem do sintoma, reorganizar padrões internos e desenvolver ferramentas eficazes de autorregulação.

A ansiedade não define quem a pessoa é — sinaliza que algo precisa de ser cuidado.

Conclusão: compreender para transformar

A ansiedade é um dos grandes desafios psicológicos do nosso tempo, mas também pode ser um convite à mudança. Quando escutada com atenção, fornece informação valiosa sobre o ritmo, os limites e as necessidades internas.

Cuidar da saúde mental é um ato de responsabilidade consigo próprio e com a vida que se deseja construir.

Se sente que a ansiedade tem ocupado demasiado espaço no seu dia a dia, procurar ajuda é um gesto de coragem e não de falha.

Sofia Almeida Barbosa é psicóloga clínica e doutorada em Psicologia, com trabalho clínico e académico em burnout, stress crónico e saúde psicológica adulta. Comentadora convidada no programa Consultório (Porto Canal).

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