Sofia Almeida Barbosa, MSc, PhD — Psicóloga Clínica e da Saúde
Partilhar uma casa, organizar as tarefas e cumprir responsabilidades em conjunto pode ocupar grande parte da vida de um casal. Ainda assim, uma relação pode funcionar no quotidiano e deixar de ser sentida como um lugar de proximidade.
«Depois de muitos anos numa relação, sinto que deixámos de conversar verdadeiramente e que somos apenas colegas de casa.» Esta foi uma das questões colocadas no programa Consultório, do Porto Canal. A pergunta traduz uma experiência que merece ser escutada com atenção: continuar a viver com alguém e sentir que o encontro emocional se tornou raro.
Compreender esse afastamento exige olhar para a história da relação, para as circunstâncias atuais e para a forma como cada pessoa vive o que está a acontecer.
Na parte inicial deste vídeo, respondo a uma pergunta sobre a perda de proximidade emocional numa relação longa. A emissão prossegue com os testemunhos finais do projeto Olhó Nobelo.
Quando as exigências do quotidiano ocupam a relação
Trabalho, filhos, tarefas domésticas, preocupações financeiras ou cuidados a familiares podem consumir tempo e energia. As conversas passam a concentrar-se no que é preciso resolver: quem vai buscar, quem trata, o que falta fazer.
Este funcionamento é compreensível em períodos exigentes. Porém, quando se prolonga, importa perceber quanto espaço resta para conhecer a experiência do outro, expressar necessidades e partilhar algo para além das responsabilidades.
A investigação mostra que as relações devem ser compreendidas no contexto em que acontecem. Um estudo publicado em 2021, que reuniu dados de dez estudos longitudinais com 1.104 casais recém-casados, encontrou uma interação complexa entre as características de ambos, os comportamentos na relação e o stress vivido por cada um. O contexto de stress modificava a associação entre esses comportamentos e a evolução da satisfação conjugal.[1]
Embora estes resultados não possam ser generalizados sem reservas a todas as relações longas, reforçam a importância de considerar as pressões externas quando se procura compreender uma dificuldade do casal.
O que significa estar emocionalmente distante?
A expressão «colegas de casa» descreve uma vivência; não constitui um diagnóstico nem permite concluir que a relação terminou.
Para uma pessoa, pode significar a ausência de conversas pessoais. Para outra, a falta de carinho, de interesse, de intimidade ou de projetos partilhados. Há quem evite falar por recear uma discussão e quem se afaste depois de várias tentativas de aproximação sem resposta.
Por isso, antes de procurar uma solução, é importante tornar a experiência mais concreta: quando começou o afastamento? O que mudou nessa altura? Em que momentos ainda existe proximidade? Ambos reconhecem a dificuldade?
O cansaço pode fazer parte da explicação, mas também é necessário explorar conflitos por resolver, sentimentos de injustiça, necessidades pouco reconhecidas ou expectativas que se alteraram ao longo do tempo.
Conversar melhor exige compreender o que acontece entre os dois
A recomendação «precisam de conversar mais» pode ser insuficiente quando o casal já tentou fazê-lo e regressa aos mesmos impasses.
Uma análise de três estudos longitudinais, publicada em 2022, encontrou uma associação consistente entre momentos de maior comunicação negativa e menor satisfação na relação. Contudo, as alterações na comunicação não permitiam prever de forma consistente as mudanças posteriores na satisfação.[2]
Estes resultados aconselham prudência perante explicações simples: a comunicação importa, mas as dificuldades relacionais não se reduzem a uma técnica de conversa.
Na reflexão clínica, interessa compreender a sequência que se repete. Uma tentativa de aproximação é recebida como uma crítica? Um pedido fica por expressar e transforma-se em ressentimento? O silêncio de um é interpretado pelo outro como indiferença? Identificar estes padrões permite trabalhar o que mantém a distância.
Criar condições para uma reaproximação
Quando existe segurança, respeito e vontade de explorar a relação, o primeiro passo pode ser reconhecer o afastamento sem atribuir antecipadamente toda a responsabilidade ao outro.
Uma formulação concreta — «Tenho sentido falta de conversarmos sobre nós e gostava de perceber como tem sido para ti» — pode abrir espaço para conhecer a experiência de ambos.
Também importa olhar para as condições práticas. Se uma pessoa concentra a gestão da casa, dos filhos ou dos cuidados familiares, criar disponibilidade para a relação pode exigir redistribuir responsabilidades e garantir oportunidades de descanso.
O tempo partilhado ganha valor quando permite atenção e reciprocidade. Pode começar por uma conversa com menos interrupções ou por retomar uma atividade de que ambos gostavam. Estas possibilidades devem ser ajustadas à história do casal; não são uma fórmula universal nem substituem o trabalho sobre dificuldades persistentes.
Quando procurar acompanhamento psicológico
O acompanhamento pode ser pertinente quando as conversas terminam repetidamente em conflito ou afastamento, quando o sofrimento se prolonga ou quando ambos têm dificuldade em compreender o que mudou.
Uma meta-análise publicada em 2020, que reuniu 58 estudos sobre terapia de casal, encontrou melhorias na satisfação relacional, na comunicação e na intimidade emocional. Os resultados apoiam a utilidade deste acompanhamento, sem garantirem o mesmo desfecho em todas as situações.[3]
A terapia pode ajudar a compreender padrões, trabalhar dificuldades e clarificar decisões. A continuidade da relação não deve ser um resultado imposto.
Se um dos elementos não quiser participar, o acompanhamento individual pode ajudar o outro a compreender as suas necessidades, os seus limites e as escolhas disponíveis. Quando há medo, violência ou controlo coercivo, a prioridade é uma avaliação individual da segurança e da resposta adequada.
Recuperar espaço para a relação
Reconhecer a distância emocional permite começar a compreender o que se perdeu, o que permanece e o que cada pessoa está disponível para construir.
A reaproximação, quando possível e desejada por ambos, envolve atenção ao quotidiano, às necessidades individuais e à forma como o casal responde às dificuldades. Ter uma história em comum merece consideração; perceber como se quer viver o presente também.
Leitura relacionada: Ter um lugar que nos espera: convívio, pertença e saúde psicológica. Nesse artigo, a reflexão centra-se nas relações comunitárias e nas oportunidades de participação e reconhecimento.
Referências
McNulty, J. K., Meltzer, A. L., Neff, L. A., & Karney, B. R. (2021). How both partners’ individual differences, stress, and behavior predict change in relationship satisfaction: Extending the VSA model. Proceedings of the National Academy of Sciences, 118(27), e2101402118. https://doi.org/10.1073/pnas.2101402118 PubMed
Johnson, M. D., et al. (2022). Within-couple associations between communication and relationship satisfaction over time. Personality and Social Psychology Bulletin, 48(4), 534–549. https://doi.org/10.1177/01461672211016920 doi.org
Roddy, M. K., Walsh, L. M., Rothman, K., Hatch, S. G., & Doss, B. D. (2020). Meta-analysis of couple therapy: Effects across outcomes, designs, timeframes, and other moderators. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 88(7), 583–596. https://doi.org/10.1037/ccp0000514